Nunca Sair do Espectro do Bem-Estar

(este texto é a sucessão lógica deste aqui )
Acorda-se com uma ânsia que se pode sentir a nível mandibular. Falta algo, queria-se trincar algo, comer algo , sentir algo, sentir vida. Mas prossegue-se sem nada sentir, cerra-se com força os maxilares, rígidos que nem pedra e executa-se o que  têm de se executar, não se vive, cambaleia-se de tarefa em tarefa, respirando de apneia, sôfregos de prazer. Os dias sucedem-se nesta agonia permanente. Existem clareiras de prazer, prazeres efémeros, fugazes, ver um vídeo engraçado na net, pensar naquela pessoa que amamos, recordar coisas boas, comer, fumar, um hobby, uma pausa para tomar café e dois dedos de conversa com amigos. Depois, cerra-se outra vez os maxilares e os dedos, e mergulha-se de novo na penosa existência de quem tem por força de sobreviver sem sentir. Blinda-se o sentir, e acha-se que isso é possível. É só mais um dia, logo logo chega o fim de semana, é só mais uma hora logo logo vem a pausa do café, é só mais um minuto logo logo acaba-se a tortura. Logo logo pode-se vestir o fato e mergulhar na água com a prancha de surf, e aí sentir, sentirmo-NOS, sentir tudo, aí pode-se existir, nesses escassos minutos, horas. Pode-se estar vivo, ser alegre, desfrutar da vida. Aí, maxilar solto, riso fácil, podia-se começar a cantar a qualquer momento, sim prazer total. Depois volta tudo ao sítio, o prazer esfuma-se, engolimos em seco, grunhe-se por dentro: oh já acabou... e mal humorados continua-se, como que almas penadas de cruz às costas. Os anos seguem, assinalam-se bem os nossos focos de prazer, estabelece-se com eles uma relação de dependência, e de gratidão, conclui-se que são eles que nos mantêm vivos, são nosso oxigénio. Planeia-se então toda a rotina de forma a incluir-los amiúde. Se acidentalmente se fica sem eles, esses balões de oxigénio, então é o desastre, a calamidade! Começa-se a ruir, a desfragmentar, tal peixe fora de água. Tudo desmorona, porque afinal tudo dependia desses balões de oxigénio, afinal só se aguenta tudo porque se sabe que mais adiante, ali na esquina, daqui a umas horas, ou minutos, ou segundos, podemos sentir, relaxar e existir. Despir o colete de forças, descerrar os dentes, sorrir, respirar, dizer que bom estar vivo. Logo a seguir, no espaço de dias, horas, minutos, segundos, inspira-se fundo, tenta-se levar o que sobeja do sentir e mergulha-se de novo no não sentir, na apatia, no sofrimento duma existência amorfa, desconexa, porque somos seres sensitivos. Não sentir é a maior calamidade que nos pode ocorrer. Não sentir torna-nos incoerentes, incompetentes seja no que for, porque a concentração está toda virada para os momentos em que sentimos, em que sentimos que estamos vivos. A solução é sentirmo-nos a todo o instante. Como? Em criança sente-se a todo o instante, e sente-se bem-estar. Encerra-se em nós essa fonte inesgotável de bem-estar. Está entre a garganta e a cabeça, respira-se de encontro ao bem-estar, respira-se afagando o bem-estar, respira-se para dentro, fica-se a sós connosco próprios e o com o bem-estar. Esse bem-estar não está associado a isto ou aquilo, nem dependente disto ou daquilo, e não é uma fabricação ilusória. É a sensação de estar vivo, estar vivo é sentir, e sentir é sentir bem. Fomos fabricados para isto, só funcionamos assim a sentir, a sentir bem. Observem as crianças e os animais, veem? Têm vários mecanismos de auto-consolo e ativam-nos a todo o instante. Já soubemos, com facilidade, ser assim, seres sensitivos. É fácil! Já soubemos nunca sair desse estado de espírito: do sentir bem. É fácil, bom de princípio requer um certo treino, prática, mas depois sai naturalmente. A questão principal é entender imperativamente que não fomos fabricados para não sentir ou sentirmo-nos mal, e que não aguentamos muito tempo assim, o sentir bem tem de ser absolutamente constante tal como por exemplo a respiração, caso assim não seja está-se condenado a uma existência errante que salta de balão de oxigénio em balão de oxigénio sem nunca atingir sua total plenitude, competência, e razão de ser. A nossa razão de ser é o prazer, para isso nascemos, para sentir só, exclusiva e constantemente, prazer. Claro para isso precisamos de fazer um extenso trabalho de auto psicanálise e perceber exatamente o que nos perturba , o que nos irrita, aquilo que teimamos em não perdoar ou aceitar e porquê, a isto chama-se auto conhecer-se, é um trabalho sem fim.



P.S. Assemelha-se ao ato de adormecer, respiramos, fraquinho, entre a garganta e o cérebro, entre as amígdalas e o meio da testa perto do nariz, baixamos ligeiramente a cabeça, respira-se como que para dentro, e dizemos para nós próprios que está tudo bem, que podemos adormecer, que podemos sentirmo-nos bem. Lembrem-se é FULCRAL SENTIRMO-NOS BEM A CADA MILÉSIMO DE SEGUNDO, NÃO SE PODE METER FÉRIAS DO SENTIR BEM, DO BEM-ESTAR, NÃO É ASSIM QUE FUNCIONAMOS!


P.S.2 O medo e a ansiedade, que não é mais do que o medo mascarado, são os piores entraves para o bem-estar, e não (ao contrário do que se supõe), a tristeza e depressão.


P.S.3 Uma criança um dia disse-me que gostava mais de dormir na sua própria cama do que em outras porque ela (a sua cama) cheirava a uma mistura de lençóis lavados e cheiro de si própria vindo das axilas, referiu também algo referente à textura que agora não recordo.


P.S.4 A nossa mente tem de estar sempre a mastigar, remorder, ruminar e a chuchar em qualquer coisa, que seja então nesse "bem-estar". Rapidamente dispersamos, fugimos do nosso eu e agora, matutamos em futuros e passados de forma angustiante como se não soubéssemos fazer mais nada, e não sabemos mesmo. Há que reeducar os mecanismos mentais, mantermo-nos focados em nós e no presente a todo o instante, de que forma? Como explico no P.S., respirando de encontro a nós, focados apenas nisso, focados em respirar de encontro a nós mesmos. Existimos em nós, instalamo-nos confortavelmente em nós, encaixamo-nos em nós e existimos simplesmente, tal qual o ar existe... Basta-te.










Escrito por Acordem a 30 de Julho de 2011









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