Momentos (1)

Primeiro a euforia de planear: este Verão é que vai ser!, quantos dias podemos ficar?, fazer contas ao dinheiro, quem devemos levar connosco?, quem vamos reencontrar lá?, planear, planear tudo até ao mais ínfimo pormenor, porque era saboroso o assunto, porque íamos de férias, porque a juventude é bela e à que vivê-la! Depois as malas feitas à pressa num ímpeto, e se partíssemos já hoje?, daqui a 2 horas? Partíamos!, parávamos normalmente a meio da viagem porque julgávamos ter esquecido alguma coisa, normalmente era falso alarme, malas feitas à pressa com a cabeça cheia de euforia só podia dar nisso! Viagem alegre, como são alegres todos os começos de uma nova vida. Em todos os Verões, em todas as viagens de Verão sentia que podia renascer, ser outra, começar do zero, ser feliz. Cantava-se na viagem, comia-se, bebia-se, fumava-se, conversava-se, mas principalmente ria-se, ria-se muito, até doerem os estômagos de tanto galhofar! Era  sempre novidade, era sempre como se fosse a primeira viagem, a primeira aventura, não era, mas o ano era longo, a espera era longa por este momento idílico, vivíamos tudo intensamente. Montar tenda e rumo à praia ou à disco conforme a hora de chegada. Tequila, shots de tequila e bifanas com pão alentejano, é isso que mais recorda o meu palato. Da praia recordo principalmente cheiros, cheiro do protetor solar, da areia, do mar e das algas. Ainda hoje quando ponho protetor solar fico logo de bom humor, a recordação associada a este cheiro é das melhores que tenho. O convívio era o melhor de tudo, único, tudo estava de férias, os maus humores, as inseguranças, havia camaradagem. Sentia-me solta, podia brincar, tinha a espontaneidade das crianças para a paródia, qualquer coisa servia de mote, todos comungavam este estado de espírito. Linda a praia, gostava de chegar cedinho, sentia-me a primeira pessoa que alguma a vez a via, o primeiro ser humano a vislumbrá-la. Que beleza natural estonteante, sim o mundo começava todos dias, todos os dias sentia esse iniciar, era tudo tão fresco e novo, ou seria só o meu olhar e humor? Não, não podia ser só isso, era um silêncio, uma plenitude transcendental, uma perfeição celeste primordial, intocável, virginal, sim sentia-me o primeiro humano sobre a Terra, isto todas as manhãs se chegasse antes de todos à praia. O nascer do Sol ainda hoje me faz sentir um pouco assim, testemunha única do começo de tudo. As bebedeiras, o tabaco, as conquistas, as amizades, o dia seguinte a contar tudo o que se passou, rir, rir, rir e rir. As paixões de Verão, os amores, as amizades. As descobertas: descobri que quando estou bêbeda falo fluentemente qualquer língua estrangeira!, a independência das primeiras férias sem vigilância de adultos, conquista-se autoestima, autoconfiança, aprendemos a desengomarmo-nos, a arranjar soluções, a cuidar de nós, sem rede, sem back up dos pais. Já sabia me cuidar, aprendi que sei ser indivíduo, a portar-me como um indivíduo, único e particular, sem ser a filha de..., sem pertencer a nenhum clã de "apoio", vida em queda livre sem paraquedas. E o mundo gostou de mim, acolheu-me quando finalmente saí do ninho e voei. Estes foram um dos melhores momentos da minha vida.

O regresso, como que soldados de guerra cheios de mazelas e histórias de vida para contar e recordar.

Sim pode se viver tudo duma vez, vivia mais nesses dias do que em anos de vida corriqueira.










Escrito por Acordem a 8 de Julho de 2011.









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