Entrega a Conta Gotas

Não entendo quem se dá aos bochechos... Quem se entrega aos pouquinhos. Como sabem eles depois a hora de partir? Têm medo de dar confiança a mais logo duma vez, medo da humilhação que pressupõe um ato de entrega mal entendido, mal acolhido. O senso comum assim recomenda. Eu não me entrego assim a nada, dou-me logo toda num solavanco, precipito-me logo toda para as coisas, no fim sei sempre quando partir. Nesse meio termo em que me estou a dar, existem espaços, oportunidades de agir, os outros, a maioria que se dá às caganitas de cada vez, não aproveita esses tempos intermédios, essa deixa que dou, para se ir entregando também, ficam na retranca, assistem no palanque ao desenrolar do jogo, como se o jogo não lhes pertencesse também. Quando todos ainda atam as chuteiras eu já estou no primeiro intervalo do jogo, toda suada e consumida, já parti, já voltei inúmeras vezes, porque ninguém gosta de jogar sozinha não é verdade. Não entendo como se pode ter a certeza e a convicção que está certo, que chegou a hora do adeus, do fim definitivo do jogo, se nunca se entregaram? Se não esgotaram as mais variadas opções, se não arriscaram o pescoço, se não deram tudo por tudo... Pois, eu só sei que chegou a cena final quando já dei mais de 200% que o meu adversário. Posso então, e só então, partir de cabeça erguida, descansada que não restam dúvidas que quis jogar, quis mesmo jogar, mas o meu parceiro não foi a jogo, ou não tantas vezes como eu, tantas vezes que podia, deixando nesse caso pairar no ar as dúvidas das suas reais intenções, vontades e desejos, e até da sua sanidade mental, pois quem se equipa todo e ameaça fazer jogo destemido e brutal, e depois nem pisa o relvado todas as vezes que o jogo começa é de se desconfiar não?










Escrito por Acordem a 28 de Julho de 2011









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