Não, não me posso dar convosco, vocês vivem embrenhados em teias de mentiras. Ai de mim que vos chame a atenção para esse facto, logo só me resta o papel de comer e calar. Para me relacionar convosco preciso participar nas mentiras que vos regem, preciso ser também falsa e mentirosa. De início tudo parece simples e fácil, até eu começar vos a desmontar, e a confrontar. A amizade ou amor passa a pesadelo, rapidamente deixa de ser possível qualquer tipo de contacto. As mentiras avolumam-se entre nós, roubando espaço para mais nada. Olá sou a "Maria"! Eu num primeiro relance percebo logo tudo da "Maria", percebo logo toda a rede intrincada de mentiras vitais que a sustentam, sem elas a "Maria" colapsava, mas mesmo assim, tendo visto tudo logo de início, inicio a relação, que estupidez minha! Convenço-me que as mentiras são dela e que em nada interferirão para o nosso relacionamento, então começo a amá-la, de repente, as mentiras, zás!, crescem entre nós, formam um muro, uma barreira clara, explícita, que explica que daí para a frente já ninguém avança, não há caminho. "Maria" mente em relação a algumas coisas, mas como tudo está encadeado em nós, logo pode dizer-se que "Maria" mente em relação a tudo. "Maria" mente sobre quem é! "Maria" não sabe quem é, pensa que é uma que não é, e sim isto é digno de pena. Mas nada posso fazer por ela, se tentar saio toda mordida, arranhada, maltratada, porque nenhuma "Maria" deseja saber a verdade, nenhuma quer saber quem é, desde muito novas as "Marias" escolheram entre ser aceites ou conhecerem-se, escolheram ser aceites, integradas, inseridas, fazer seja o que for para serem bem acolhidas, nos grupos, turmas, sociedades. Querem ser iguais, não ter nada nelas que as distinga das outras. Como dizia, o problema não são as mentiras em si, porque com as mentiras dos outros posso eu bem. Elas crescem entre nós, e só uma pessoa pode estar certa, e para ser eu a estar certa tenho de falar dos outros, expor mentiras, retirar máscaras, e ninguém quer isso, e depois passo a ser eu a fraude, eu é que minto, acusam, porque se assim não for, se eu estiver certa, então são eles/as os/as mentirosos/as. Quem quer ver um trabalho, esforço duma vida destruído por mãos alheias num ápice? Esmeraram-se por mentir muito bem toda uma vida, tudo porque, escolheram ser aceites socialmente, invés de escolherem existir simplesmente, depois vem fulana tal, eu, e com um relance desmancho tanta mentira religiosamente acumulada, ora mordem-me é claro, e agarram-se de unhas e dentes ainda mais às mentiras, dizem, quem és tu para nos confrontares?, o que sabes tu sobre mim?, como sabes a diferença entre uma mentira e uma verdade?, etc... Já nem respondo quando chega a essa fase, mas se o fizesse seria: apenas vejo o que me mostram, observo muito atentamente as vossas pequenas, de início, subtis, incoerências, que crescem como ervas daninhas e não dão espaço para mais nada, só vos apresento o espelho de vós mesmos, só isso. Também eu já tive mentiras como meus pilares principais de vida, mas sempre
me escolhi, sempre desejei saber quem era, nunca me inseri, paguei um preço caro. Ainda hoje e sei que até morrer vou viver com mentiras no meu âmago, mas todos os dias as podo de modo a não crescerem, todos dias as identifico, ou pelo menos aquelas que consigo identificar, e principalmente nunca mordi em quem me confronta com as minhas mentiras, acolho isso como uma ajuda preciosa, agradeço, reflito. Claro existem as intenções, as intenções por trás dessa ação, ser forem más então recebo tudo à pedrada. Intenção de humilhar, rebaixar, pelo belo prazer de se dizer verdades, quer dizer, de se "dizer das boas" só porque sim, só porque se pode, só porque está ali um interlocutor, pontapear só porque sim, ação estéril, cruel, desnecessária. Só acolho bem quem tem boas intenções.
Restam-me os animais, a natureza, isso sim vale a pena todos os dias. É uma verdade imutável, irrefutável, cristalina. Nunca me arrependi desses momentos.
Escrito por Acordem a 14 de Julho de 2011.
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