Pessoas Frias

As pessoas frias não sentem. Não gostam. Não partilham. Não nada. Têm o sentido crítico apurado ao máximo. Disparam críticas a torto e direito, esse é o seu álibi, a sua justificação por se manterem à margem, longe de misturas. As pessoas frias não se misturam, não se unem. Veem apenas todos os nossos defeitos clara e nitidamente. Não somos dignos delas, sentem-se muito acima das falhas e defeitos comuns, sabem que também falham, “Mas isso é diferente", dizem. Quando falham arranjam desculpas, põem as culpas nalguém ou em algo, são perfeitos, muito acima da média. As pessoas frias, nunca se assumem frias, porque isso seria um enorme defeito, dizem-se incompreendidas… Quando falo olhos nos olhos com uma pessoa fria sinto-me a falar através de vidros, sinto-me do lado de fora, fala-se sempre do lado de fora com uma pessoa fria, ela nunca nos convida para conversas mais intimas. As pessoas frias têm horror de intimidades, de uniões profundas, gozam imenso com isso, chamam totós aos que embarcam nisso, dizem-lhes que foram engrupidos, aconselham-nos a porem-se ao largo o quanto antes, aconselham-nos vivamente a saírem dessa parvoíce o quanto antes. São profícuos em conselhos, porque são mais espertos que a maioria, dizem. A eles ninguém engrupa. Estas pessoas encaram a vida como um mau filme, e passam o tempo todo a dizer para si próprios baixinho “Tirem-me deste filme”. Desejavam ser compreendidos e até amados, mas como isso implicava deixarem de ser aqueles asnos empertigados metidos em redomas de vidro, então decidem que isso não, isso nunca. As pessoas frias veem o mundo através de uma lente grossa que distorce, veem podridão em tudo. Não se nota facilmente que uma pessoa é fria, porque os frios adoram conviver, precisam criticar, um dia sem criticar não é um dia para eles. Precisam dos outros para serem eles, para existirem, os defeitos dos outros exaltam as suas qualidades inexistentes. Só têm capacidade de crítica, vivem no mundo como personagens principais, são os heróis em cena, julgam, julgam e julgam, não sabem fazer mais nada, não são mais nada, são um gigantesco icebergue andante inquiridor, de dedo esticado a apontar os outros, a detectar podres. Quando casamos com uma pessoa fria, sentimo-nos sozinhos, sentimo-nos a dar murros diários numa parede, sentimo-nos a tentar abraçar uma parede, sentir o calor dum icebergue, enfim, altamente prejudicial para qualquer um, enquanto nós definhamos diariamente naquela suposta união, a pessoa fria prospera, sente-se cada vez mais feliz, já que precisa da podridão para a criticar, como do pão para a boca. Quando se tem um progenitor assim, crescemos a sentirmo-nos um zero à esquerda, e nunca ultrapassamos essa sensação. Fomos olhados durante todo o crescimento de alto abaixo, com olhos raio X, que nos avaliam friamente sem qualquer emoção, apenas com asco e nojo. Crescemos com a impressão que nada em nós bate certo, que somos dotados de defeitos por todos os lados, sentimos que seria impossível seremos menos defeituosos.




















Escrito por Acordem a 13 de Junho, 2009.













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