ACORDEM

Crítica Social Apurada Por Observações Atentas De Rebanhos E Afins.

Os Avcs e o Amor

É ridículo como nestes tempos de pobreza de valores se dá tanto crédito ainda ao amor, diria mais, se dá mais do que nunca valor ao amor, à alma gémea. Perdem-se horas infindáveis nessa busca, conhecem-se  parceiros sem fim, acreditamos que nossa busca cessou finalmente, mas ao fim de escassos meses tudo termina, destroçados, partimos em busca de novo, ainda com mais força que antes, temos implantado no cérebro a ideia mágica dum amor, dum ser por si só mágico que será a solução para todo o nosso sofrimento intrínseco. O sucesso está por trás deste implante, a ideia que todos temos que a vida nos deve isso, deve-nos a felicidade, e dela dependem sucesso pessoal e profissional. Todos temos de ser seres bem sucedidos nesta época ou então não passamos duns falhados, nesta exigente época não existem meios termos ou somos bem sucedidos ou falhados, não existe lugar para outra categoria de gente. Por isso estamos mais românticos que nunca, perseguimos o amor romântico a todo o custo, não desistimos a troco de nada, também não existe nada melhor. Os homens não têm já vergonha de serem sensíveis, românticos e do mostrarem ao mundo, as mulheres cada vez mais exigentes não têm pudor em expor suas condições, aparentemente buscam o amor, querem se certificar que esse amor é melhor do que o do vizinho senão pelo menos igual, ou então basta um amor qualquer desde que saiam das estatísticas dos sós e mal acompanhados, desde que consigam fazer programas para dois, cinema para dois, viagens a dois, para que o mundo veja que subiram um degrau no sucesso das coisas, para que o mundo saiba que não existe nada de errado com eles, que alguém os ama, que são normais amáveis, para que o vizinho saiba... Mas como são ocos, os dois recém enamorados só buscam o fútil, o superficial, a entrega real não acontece, logo tudo se torna insuportável e mais uma vez acham que a vida lhes deve, que têm direito a uma existência melhor, em paz... Separam-se, separam-se esperançosos que existe algo melhor à sua espera, uma pessoa capaz dos amar de verdade, como no início acharam desta que agora se separam. Afinal o paraíso prometido fica já ao dobrar da esquina. O amor não deve ser uma meta de vida mas um bónus, não deve ser perseguido, mas achado, devemos tropeçar nele um dia distraidamente. Colocarmo-nos assim tão frágeis, necessitados perante ele, só dá mau resultado. Dar esse enorme poder a um estranho, sim pode se morrer por amor, ou por causa dele, despir-me a toda a hora em frente a estranhos, colocar-me de alma nua, disposta a tudo, pode sim levar-me à morte. Desejam morrer assim? Nas mãos dum estranho? Que vos usou, gozou, mentiu, prometeu mundos e fundos, a eterna felicidade e um dia disse adeus mudei de ideias, ou nem adeus disse? Querem morrer assim por avc? Por acidente vascular cerebral? Por causa dum estranho, por cauda de amor? Não. Morrerei doutra forma, chegam de estranhos, meu amor será um conhecido, alguém que conheça muito bem, para minimizar as surpresas desagradáveis, os avcs. Meu amor me procurará, já não o espero, não o procuro, sigo a vida como ela é, tenho outros interesses sabem? Nem só de amor se vive. Quero ser valorizada, não quero um companheiro que me menospreza, que só me confere metade ou menos do meu valor real. Existe um mundo cheio de possibilidades e de pessoas, o mundo sim sabe o meu valor, dá-me valor, aprecia-me. Para quê arranjar um "amorzinho", um traste qualquer que não nos estima, não nos dá valor? Serei muito feliz sem amor nenhum, sempre o fui, só que não reparava por andar sempre distraída a sentir que precisava dum amor. Tornem-se autónomos, reajam, façam planos, aprofundem saberes, conheçam-se, existe tanto para fazer, para viver, se esta época do tempo não é propícia a relações verdadeiras amorosas e de amizade, que fazer? Improvisem, vivam intensamente, vivam-se, disfrutem-se, e arranjem animais, eles ainda são bons amigos, verdadeiros e intensos, é tudo o que se quer dum ser, dum relacionamento. Próspero Bom Ano Novo cheio de solidões bem vividas!











Escrito por Acordem a 10 de Janeiro, 2010.










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